
O
crescimento da população brasileira associado
à ocupação desordenada do solo
urbano, aos sistemas de coleta pouco abrangentes e eficientes,
à demanda por locais para destinação
de resíduos sólidos e condições,
ainda inadequadas, e de saneamento básico são,
na grande maioria dos casos, as condições
encontradas nos municípios brasileiros. Segundo
o IBGE, no ano 2000, 52,8% dos municípios brasileiros
lançavam seus resíduos em lixões,
dessa forma cerca de 66.150 mil toneladas de lixo estavam
sendo despejados inapropriadamente no solo brasileiro
a cada dia. Tais condições, além
de proliferar doenças, também atraem quantidades
significativas de alguns tipos de aves, em sua busca
incessante por alimento. Neste aspecto, as aves, por
serem as verdadeiras proprietárias do espaço
aéreo, têm se constituído em um
problema ao tráfego de aeronaves. Em 2008, duas
das principais espécies atraídas pela
oferta de lixo foram o urubu de cabeça preta
(Coragyps atratus) e a garça pequena branca (Egretta
thula), que responderam, respectivamente, por 37% e
por 8% das colisões em que a espécie de
ave pôde ser identificada.
Ações
chamadas “intramuros” têm sido realizadas
pela maioria dos administradores de aeródromos,
porém, ainda têm se mostrado insuficientes
para reduzir os riscos, pois as aves quase sempre não
são residentes no sítio aeroportuário,
mas sim no seu entorno. Diante da complexidade e abrangência
do assunto, estão sendo realizadas atividades
educativas há anos, para a conscientização
de autoridades. Hoje, é bastante improvável
que pessoas públicas não saibam que existe
risco de uma aeronave ser “abatida” por
uma ave ou bando de aves, especialmente após
a amerissagem do avião da companhia US Airways,
no Rio Hudson, em 15 de janeiro de 2009.
O avanço obtido desde o início dos trabalhos
é positivo, mas há a real necessidade
de acelerar todo o processo através do estabelecimento
de um Plano de Gerenciamento e Controle da Fauna, que
se inicia na identificação das espécies-problema,
escalonando-as de acordo com seu risco potencial, prosseguindo
com a definição de seus hábitos
e dos fatores atrativos que as trazem aos setores usados
pelas aeronaves. Esta avaliação não
deve se restringir à área interna do aeroporto,
sob pena de se tornar inócua.
Importante passo neste sentido ocorreu ainda, em 1995,
quando, com a ativa participação do CENIPA,
o Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA) aprovou
sua Resolução
nº 04 em 09 de outubro. Nela foram estabelecidas
restrições à implantação
de atividades que atraíssem aves, concretizando-se
como um marco sobre o assunto no Brasil. A aplicação
prática desta não tem surtido muito efeito,
pois não foram definidas, à época,
obrigações aos órgãos públicos
responsáveis pelo uso do solo urbano e pelas
sanções aos empreendedores. Mas, a delimitação
da Área de Segurança Aeroportuária
(ASA), onde certas providências deveriam ser tomadas
antes da liberação de qualquer tipo de
atividade, foi fundamental. A ASA, círculo imaginário
com raio de 13 km para aeroportos que operam somente
em condições visuais - de 20 km, para
os demais -, permitiu a limitação de um
espaço circunvizinho suficientemente abrangente,
sem, no entanto, tornar-se irreal pela ausência
de um limite máximo.
Ratificando, a resolução prevê a
não instalação de atividades atrativas
no interior da ASA. Diante disso, é fundamental
que seja realizada consulta junto ao Comando Aéreo
Regional (COMAR), órgão que abrange o
aeródromo e o estabelecimento atrativo. Como
tal parecer não é solicitado regularmente,
junto à aeronáutica, mas o é junto
ao órgão de licenciamento ambiental, sugere-se
ao Serviço Regional de Investigação
e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos
(SERIPA) a criação de um canal de comunicação
direto com as instituições locais do Sistema
Nacional de Meio Ambiente (SISNAMA). A finalidade é
dispor do conhecimento dos processos em andamento, observando-os
sob a ótica da prevenção do perigo
da fauna. A Comissão de Controle de Perigo Aviário
no Brasil, através do IBAMA, levará tal
necessidade ao Ministério do Meio Ambiente (MMA),
objetivando que as instituições responsáveis
pelo licenciamento de atividades realizem consulta ao
respectivo COMAR, antes da emissão do Relatório
de Impacto Ambiental (RIMA).
Atualmente,
os focos de atração “extramuros”
têm sido alvo de grande preocupação,
pois envolvem instituições públicas
e privadas que nem sempre demonstram interesse em contribuir
no processo, seja por não aceitarem custos necessários
à melhoria das condições, seja
por não acreditarem estar envolvidas com a aviação.
Esquecem-se, porém, que aeronaves, quando incontroláveis,
podem envolver qualquer ser humano, independente de
quão modesto seja, em um acidente aeronáutico.
As atividades atrativas mais comuns no Brasil, além
dos lixões, são curtumes, abatedouros,
beneficiadores e pontos de venda de pescado, mercados
livres e áreas viciadas de deposição
clandestina de lixo pela população, os
“lixões de bairros”.
Houve,
em 2008, um acréscimo no número de reportes
de ocorrências, via ficha CENIPA 15, no entanto,
há ainda grande quantidade de erros de preenchimento,
o que tem dificultado o trabalho de cadastro e, consequentemente,
a qualidade das informações armazenadas.
A fim de reduzir tais distorções, foram
compiladas orientações
de preenchimento onde se pode verificar como utilizar
adequadamente as fichas de reporte com a fauna, no sentido
de consubstanciar ações de redução
do risco através da análise de tendências,
por exemplo.
O aumento do número de reportes indica melhora
na conscientização da comunidade aeronáutica,
confirmando que é requerida a participação
de todos, desde o operador de pátio, que detecta
marcas de impacto na aeronave e o comunica - ainda que
não tenha ocorrido dano material - até
o operador da torre de controle, que avista um bando
de pássaros nas vizinhanças do aeródromo.
Este órgão, além de alertar os
pilotos, pode captar maiores informações
sobre a localização do bando e do foco
atrativo, fazendo uso da ficha CENIPA 15 logo depois,
para notificar uma situação de risco em
potencial, denominada “avistamento de aves”.
Esta informação também poderá
ser repassada às demais aeronaves em aproximação
no local.
Nos EUA, desde o ano 2000, são feitos, anualmente,
mais de 5000 reportes, mesmo assim, estima-se que somente
de 20 a 25% das colisões sejam efetivamente comunicadas.
Por aqui, ainda há muito que melhorar nossa mentalidade
sobre o assunto. O Brasil possui a segunda maior frota
de aeronaves e a segunda maior variedade de espécies
de aves em todo o mundo, levando a crer que tenhamos
números bastante semelhantes aos dos norte-americanos
a cada ano.
Recapitulando, o ideal é que toda anormalidade,
relacionada com a fauna, na atividade aérea seja
reportada, desde uma concentração de garças
na vegetação próxima à cabeceira
15 do Aeroporto Internacional do Galeão, passando
por um desvio necessário e efetivo realizado
durante um voo à baixa altura, no interior da
ASA do Aeroporto Salgado Filho, até o cruzamento
de uma raposa sobre a pista, após um pouso noturno
no Aeroporto Senador Nilo Coelho.
Obviamente, todas as colisões com a fauna, ainda
que sem danos materiais, devem ser comunicadas via ficha
CENIPA 05 (incidente ou acidente) e via CENIPA 15 (colisão
com a fauna). Esta ficha é composta de dados
essenciais para a redução da presença
de animais. Sem estes, torna-se difícil conscientizar
e, especialmente, obter a indispensável colaboração
de organizações e instituições
aparentemente não envolvidas na atividade aérea.
A comunicação de ocorrência com
a fauna (colisão, quase colisão ou avistamento)
pode ser feita inclusive via relatório de prevenção
(RELPREV - CENIPA 08), caso só se disponha dos
dados básicos sobre o evento, como: data, hora
e local. Relembrando mais uma vez, todos os dados possíveis
devem ser fornecidos, mas pior é não enviar
nem mesmo os dados básicos. Ter conhecimento
da ocorrência de problemas com determinado aeródromo
é importante, mas ainda existirá a necessidade
de investigar os diversos aspectos envolvidos, ao passo
que, com fichas CENIPA 15 bem preenchidas, estas informações
já estarão disponíveis, através
da análise do banco de dados, produto do somatório
de cada ficha. Com
o objetivo de facilitar o envio da ficha 15, o CENIPA
disponibilizará, na internet, um formulário
eletrônico de comunicação. Este
será aberto logo após o envio de uma ficha
- a 05 para comunicação de ocorrência
- desde que esta seja do tipo “colisão
com pássaro”. As ocorrências de quase
colisão e avistamento de aves serão comunicadas
através de link próprio, também
em formulário “on-line”, no site
do Centro. O método hoje usado de enviar a ficha
15, anexa à mensagem eletrônica, para perigoaviario@cenipa.aer.mil.br
será mantido em funcionamento.
Até hoje, diversas aeronaves foram perdidas e
259 pessoas, dentre tripulantes e passageiros, já
faleceram em acidentes decorrentes de colisão
com aves. Desde 1987, o assunto recebe a atenção
do CENIPA. Em 2001, através do Comitê Nacional
de Prevenção de Acidentes Aeronáuticos
(CNPAA), foi criada a Comissão de Controle do
Perigo Aviário no Brasil (CCPAB), inicialmente
composto por: CENIPA, DAC, IAC, INFRAERO, IBAMA, CEMAVE,
Varig e Líder Táxi Aéreo. Desde
a criação, a CCPAB tem por objetivos:
discutir todos os aspectos relacionados ao assunto,
buscando conhecimento e técnicas de mitigação
da fauna; coordenar ações em nível
nacional, prestando apoio para que o risco seja minimizado;
e ainda, divulgar o assunto junto às autoridades,
na tentativa de sensibilizá-las para os riscos
decorrentes da não realização de
ações que estão ao alcance delas.
Com o avanço mundial do problema, será
necessário rebatizar a CCPAB para Comissão
de Controle do Perigo da Fauna no Brasil (CCPFB).
Várias
ações foram conduzidas em diversos pontos
do país e bons resultados mereceram, inclusive,
destaque internacional validando os trabalhos desenvolvidos.
Atualmente, são membros da comissão, além
dos já nomeados: a ANAC, a EMBRAER, a Marinha
do Brasil, a TAM, a Gol e a Azul Linhas Aéreas.
Qualquer organização que manifestar interesse
poderá ser incorporada na CCPAB, a fim de melhorar
qualquer um dos processos de prevenção
do perigo da fauna.
Desde sua criação sob a coordenação
de militar do CENIPA, a CCPAB está em vias de
realizar um rodízio e, em breve, será
dirigida por pessoal da ANAC. Toda a metodologia de
coleta de dados, através das fichas CENIPA 15,
e o controle do banco de dados gerado não sofrerão
qualquer mudança. O objetivo é beneficiar
aqueles que enviam as fichas, que não sentirão
qualquer alteração no processo atual de
notificação de colisão, quase colisão
e avistamento de fauna. A manutenção desta
postura se deve também ao fato de que o CENIPA
tem enviado anualmente os dados brasileiros à
OACI / ICAO.
Periodicamente, a CCPAB e o próprio CENIPA são
consultados por diversas instituições,
dentre elas o Ministério Público, normalmente
solicitando informações consubstanciadas
do perigo da fauna. É imprescindível que
exista uma base de dados consolidada, decorrente do
recebimento das fichas 15, para orientar metodologias
que reduzam os riscos. Dados são necessários
também para a condução do plano
de manejo de fauna, única ferramenta legalmente
válida no país para se realizar, por exemplo,
o abate de animais. Todos os passos do processo de implantação
de plano de manejo para aeródromos são
regidos pela Instrução
Normativa nº 72 (IN 72), do IBAMA.
Infelizmente,
alguns resultados obtidos ao longo dos anos foram perdidos,
por falta de acompanhamento e supervisão das
ações adotadas à época,
especialmente as de cunho educativo, que visavam à
modificação, em médio prazo, dos
hábitos da população. Seguindo
procedimentos internacionalmente adotados, a CCPAB está
orientando a todos para a formação de
comissões locais de perigo aviário, sob
a coordenação do administrador do aeródromo.
A Comissão de Controle do Perigo da Fauna Local
(CCPF-L) deve ter por objetivos: a definição
e a manutenção de um panorama atualizado
do risco na ASA do aeroporto, o gerenciamento de atividades
mitigatórias, a constante interação
entre diversas parcelas da sociedade local e a adequação
do aeródromo aos preceitos definidos na IN 72.
É fundamental a participação daqueles
representantes, identificados pelo Coordenador, a fim
de que ocorra, minimamente, um ajuste de conduta na
atividade atrativa, reduzindo os riscos de colisões
da fauna com aeronaves.
A composição mínima sugerida da
CCPF-L incluiria as seguintes representações:
prefeituras dos municípios que têm área
no interior da ASA; escritórios regionais do
IBAMA e demais parcelas do SISNAMA nas esferas estadual
e municipal; universidades públicas e particulares;
representação da ANAC no local (PSAC);
operadores civis e militares;e associações
de moradores e de catadores e recicladores de lixo do
entorno. A Procuradoria da República, em cada
Estado, após a devida sensibilização,
deverá ser convidada a participar como uma espécie
de “anjo da guarda” do coordenador, facilitando
o andamento das ações estipuladas nas
reuniões da CCPF-L.
Deste
modo, será viável o estabelecimento de
equipes, em sistema de revezamento, para levantamento
de dados populacionais, coordenação de
uso dos métodos mitigatórios implantados
e a proposição de novos meios de repulsa,
a avaliação comportamental e a detecção
de pontos de atração extramuros, decorrentes
do comportamento aviário. Haverá necessidade
de apoio especializado, que hoje a rede INFRAERO já
possui, através de biólogos, sediados
nas regionais da empresa. Tal pessoal tem capacidade
técnico-profissional para orientar também
algumas ações imediatas de manejo, como
por exemplo, a mudança dos horários de
corte de grama para o período noturno, que reduz
a concentração de algumas aves na área
de pista, e a negação do uso de pontos
de dessedentação, através do uso
de redes sobre canais de drenagem de águas pluviais.
É recomendável que as demais organizações
que administram aeródromos busquem parcerias
para suprir a ausência de pessoal especializado,
necessário para orientar as ações
e viabilizar a redução do risco da fauna.
Outra
questão bastante importante é a necessidade
de melhorar o processo de identificação
das espécies-problema. Em 61% das colisões
ocorridas no ano de 2008, a espécie de ave não
foi determinada, não havendo meio de determinar
e, portanto, de reduzir o motivo pelo qual estas foram
atraídas para as trajetórias das aeronaves.
A redução deste índice só
poderá ser conseguida através do trabalho
em equipe, da formação de convênios
e do treinamento do pessoal na coleta de dados a partir
dos despojos aviários, sejam eles carcaças,
penas ou até mesmo resíduos sanguíneos.
Atualmente, a metodologia de identificação
por imagens está sendo melhorada, com a iniciativa
e o apoio das biólogas da INFRAERO, permitindo
que, possamos reduzir o percentual de aves não
identificadas. O grupo “avifauna” deve receber
as mensagens de comunicação (CENIPA 15),
sempre que possível acompanhada de fotografias
do animal. Para melhorar a qualidade das fotos, foi
confeccionado um Guia de Orientação,
que, tornando-as mais claras, melhorará o processo
de identificação da espécie. A
conclusão final do grupo de biólogas é
remetida ao CENIPA, para retificação ou
ratificação da espécie anteriormente
constante da comunicação recebida.
Devem-se formar também parcerias com instituições
que tenham a capacidade técnico-operacional de
realizar exames de DNA. Seguindo o exemplo do que ocorre
nos EUA, onde o Smithsonian Institute realiza todas
as análises do material recebido sem qualquer
custo. No Brasil, é desejável que as parcerias
sejam firmadas com instituições localizadas
em diferentes regiões, possibilitando a celeridade
do processo, em função do local da coleta
de material. A metodologia de coleta deverá ser
exaustivamente ensinada, evitando desperdício
de recursos.
O
assunto perigo da fauna é estudado de modo bastante
aprofundado e diverso, em outros países, existem
iniciativas extremamente simples e outras “high-tech”.
O adequado é levantar as necessidades e delas
buscar soluções particularizadas, não
há como copiar as soluções de outras
localidades. Esta troca de experiências tem se
mostrado de grande valia na busca de opções
aplicáveis à realidade brasileira. Neste
sentido, representantes brasileiros estiveram em diversos
seminários e outras atividades, como por exemplo,
em um intercâmbio no Chile há alguns anos,
quando conheceram alguns aspectos da técnica
de uso de cães “border-collie”. O
desenvolvimento desta técnica, no Brasil, está
sendo feito na Base Aérea de Santa Maria, que
busca parceiros para facilitar o andamento desta atividade.
Há diversos comitês regionais e nacionais,
que estão em atividade constantemente, demonstrando
que há muito a realizar e desenvolver, pois a
questão é complexa e diversificada. Mas
é ponto pacífico entre todos que uma vez
iniciados os trabalhos, jamais serão finalizados,
somente administrados e reorientados. Afinal, a fauna
sempre irá procurar o equilíbrio que o
próprio homem continua ameaçando diariamente,
com inúmeras ações de conhecimento
público. O coordenador da CCPAB acumula também
a coordenação do Grupo Sul Americano do
Comité Caribe e Sudamerica de Prevención
del Peligro Aviario y Fauna (CARSAMPAF),
de acordo com eleição realizada em 2003,
em Santiago do Chile. Na oportunidade, o Brasil foi
escolhido por ter se destacado em ações
que lograram bons resultados.
No Brasil, seminários nacionais e internacionais
têm sido realizados há alguns anos, o último
foi realizado em Brasília, em novembro de 2008,
concomitantemente com as reuniões do CARSAMPAF
e do “International Bird Strike Committee (IBSC)”.
O futuro acena com a melhoria das condições
para a realização das atividades, tornando-as
mais eficazes, através da Instrução
Normativa nº 141, do IBAMA, que viabiliza o
manejo emergencial de espécies consideradas nocivas
à população e, especialmente, com
a aprovação final do Projeto
de Lei 4464 / 2004, que ora foi aceito, por unanimidade
na Câmara Federal, e seguirá para o Senado
Federal, para revisão final. Com tal ferramenta,
a autoridade aeronáutica terá condições
de, após localizar e ratificar que há
atividade atrativa no interior da ASA, impor sanções
administrativas ao responsável pela atividade.
Caso estas não sejam cumpridas, serão
sucedidas por penalidades, culminando com a cessação
da atividade.
O perigo da fauna na Aviação Militar
Brasileira
As
colisões com aves representam o tipo de ocorrência
que mais afeta a frota de aeronaves militares, tendo
causado a morte de um tripulante em 1962, a perda de
um caça F-5 em 1975, de um F-103 em 1986, e de
um AT-26 em 2006. Outro fato que merece ser citado,
devido às suas consequências, foi o ocorrido
com o Capitão Aviador Glauco, em 1984, quando
o F-5B que tripulava como instrutor colidiu com um urubu,
causando-lhe a perda total da visão.
Em 2008, os choques com aves representaram 35% do total
de ocorrências com aeronaves militares brasileiras.
Proporcionalmente, em relação ao número
de movimentos, as aeronaves militares sofrem mais que
as civis, pois sua área frontal é pequena,
o que dificulta sua visualização pelas
aves. Boa parte das missões militares é
realizada à baixa altura, o que aumenta o tempo
de exposição ao risco, comprovando que
o problema não está localizado somente
nas áreas aeroportuárias, mas no país
como um todo.
As metodologias de trabalho preventivo citadas anteriormente
se aplicam também aos aeródromos exclusivamente
militares, pois há a mesma necessidade de evitar
que aves potencialmente perigosas permaneçam
na ASA. Nesta condição, existe carência
nas Forças Armadas de pessoal qualificado na
área de biologia, sendo necessário sanar
tal condição, através de contratação
ou da formação de convênios com
instituições de ensino locais. A viabilidade
de contratar pessoal habilitado para dar apoio técnico
e instrução aos militares nas diversas
localidades também está sendo verificado.
Há exemplos bastante positivos, mesmo sem gastos
adicionais, como os verificados em parcerias da SIPAA
da Base Aérea de Santa Maria que junto ao Escritório
Regional do IBAMA, que possibilitou a divulgação
do assunto e a visita a diversos locais com potencial
atrativo; o Chefe da SIPAA da Base Aérea de Natal,
que por iniciativa própria, recebe comunicados
via RELPREV e os transforma em fichas CENIPA 15, o que
estimula os tripulantes a enviar reportes; e o Chefe
da SIPAA da Base aérea de Salvador, que junto
com a INFRAERO local, estão localizando e registrando
com coordenadas geográficas, no entorno aeroportuário,
os focos atrativos de aves, informando-os à companhia
de lixo urbano, que disponibilizou inclusive um telefone
de “disk limpeza” para acelerar o processo
de limpeza das áreas.
O CENIPA prestará todo o apoio possível
aos Comandantes de Bases Aéreas que são
administradores de aeródromos exclusivamente
militares, prestando assessoria, facilitando a concretização
de ações e acompanhando o desenvolvimento
das atividades em andamento.
Com a passagem da coordenação da CCPAB,
nada se alterará na organização
de eventos e reuniões com autoridades civis do
entorno de aeródromos exclusivamente militares,
pois o CENIPA manterá pessoal destacado para
tais trabalhos.
O perigo da fauna na Aviação Civil
Brasileira
De
acordo com os reportes recebidos pelo CENIPA, de 2006
a 2008, foram registradas 1.321 colisões com
aves no Brasil, destes mais de 1.100 eventos ocorreram
nas proximidades dos aeroportos, entre as fases de aproximação
final e de subida inicial, isto é, dentro da
ASA.
Em 2008, os prejuízos diretos das empresas aéreas
foram superiores a US$ 3,350,000.00. Estas cifras significam
uma fatia do prejuízo, pois os custos indiretos
normalmente multiplicam este montante por quatro, e
em alguns casos até mesmo por cinco. São
considerados custos indiretos todos aqueles que decorrem
de apoio ao passageiro (transporte, hospedagem, alimentação,
etc.), do translado de outra aeronave, para a posterior
realização do vôo, e do lucro cessante,
gerado pela paralisação do avião
danificado. Isto sem falar na imagem da empresa e no
pior dos prejuízos – um acidente aeronáutico.
No mesmo período, as colisões com aves
representaram 65% do total de ocorrências, considerando-se
acidentes, incidentes, incidentes graves e ocorrências
de solo. Isto demonstra a necessidade de que ações
sejam realizadas imediatamente para reduzir o número
de eventos.
As ações tomadas pelos pilotos estão
reduzindo, de certa forma, a gravidade dos impactos,
pois está sendo utilizada velocidade reduzida,
quando voando entre o solo e 10.000 pés, área
onde acontece a quase totalidade das colisões.
Os operadores devem realmente reportar todos os eventos,
mesmo aqueles sem danos, pois nestes casos se forma
a base de dados sobre determinado aeroporto, permitindo
ações preventivas.
Avaliação do risco do perigo da
fauna no Brasil
Com objetivo de mensurar a gravidade das colisões
com pássaros, diversas instituições
internacionais têm desenvolvido métodos
de avaliar o risco envolvido no problema. É necessário
observar inicialmente certos parâmetros para se
chegar a conclusões que viabilizem esta avaliação.
O primeiro deles é a energia
dissipada no impacto, que dependerá da velocidade
da aeronave e da massa da ave, de acordo com a fórmula
abaixo, extraída da física de movimento
(cinética):
Obviamente,
diversos tipos de aves, apesar de pesadas não
representam riscos à aviação, exemplo
claro do pinguim, que é ave, mas não representa
risco por motivos óbvios. O inverso também
é verdadeiro, existem outros animais, que mesmo
não sendo aves representam riscos, o morcego
por exemplo.
Há que se considerar então a probabilidade
de que determinada espécie venha a colidir com
aeronaves e a severidade da colisão, caso venha
a acontecer.
O grau de perigo resultante da probabilidade e da severidade
da colisão deve considerar, para cada tipo de
ave, os seguintes aspectos, dentre outros: o peso da
ave, seu comportamento de vôo, o tamanho do bando,
o número médio de indivíduos presentes
na trajetória de vôo das aeronaves, o tempo
em que utilizam estas áreas, o período
do dia de maior atividade da espécie, a habilidade
que cada tipo de ave tem para evitar a colisão,
a localização de seus pontos de descanso,
pernoite, alimentação, dessedentação
e procriação. Estes aspectos devem ser
mensurados em relação ao sítio
aeroportuário e às trajetórias
de vôo das aeronaves.
Sobre estas devem ser considerados: a área frontal,
o nível de ruído do (s) motor (es), a
manobrabilidade, a quantidade e o tamanho da entrada
dos motores e a velocidade mantida nas fases de vôo
abaixo de 5.000 ft de altura, etc. Especificamente sobre
os motores, em 2000, houve uma revisão que elevou
os requisitos de resistência à ingestão
e impacto de aves. Para conhecer os requisitos atuais,
acesse o FAR
33.76.
A severidade do impacto é decorrência direta
da fórmula anteriormente exposta, mas não
somente desta variável, pois deverá ser
influenciada pelo local onde ocorreu o impacto na aeronave,
a fase de vôo e, até mesmo, a existência
de área alternativa disponível para pouso.
Aqui se pode determinar a importância dos reportes
de ocorrências com a fauna, pois todas as variáveis
citadas são retiradas dos dados fornecidos nas
colisões reportadas. Quanto melhor preenchidas
as fichas, melhor mensurada será a base de dados
para a avaliação dos parâmetros
da matriz de risco, que é genérica, pois
as variáveis têm diferentes pesos, também
de acordo com o aeroporto observado.
Objetivando uma avaliação sistemática
que contribua para quantificar a ameaça que cada
uma das espécies presente, em determinado aeroporto,
representa à atividade aérea, de acordo
com suas características próprias, que
incidem diretamente na probabilidade e na severidade
das colisões, foi definida a Matriz de Perigo
da Fauna, especificamente da fauna aviária. Seguindo
recomendações de especialistas internacionais
e estudos realizados pela Unidade de Administração
da Aeronáutica Civil da Colômbia, no Aeroporto
Internacional Ernesto Cortissoz – Barranquila,
esta matriz apresenta categorias, com quatro estados
cada, que representam os valores de risco para as operações
aéreas, onde zero é o valor mínimo
e três o valor máximo de risco.
O
somatório dos pontos mostrados na coluna “grau
de risco” classifica as aves por sua periculosidade,
de acordo com variáveis comportamentais próprias
de cada espécie, em sete variáveis, que
escalonam cada espécie em quatro níveis
de risco.
Não se deve ignorar o fato de que a fauna apresenta
variações comportamentais cíclicas,
em função de diversos aspectos, como as
estações do ano, os períodos de
chuva, a escassez de alimento, etc. Portanto, uma mesma
espécie pode alterar seu grau de risco, devendo
ser feito o acompanhamento destas mudanças. Como
consequência direta, por exemplo, pode ser necessária
a inclusão ou retirada de ação
mitigadora em determinado local, em função
da época do ano.
O acompanhamento é continuadamente realizado
através das atividades de observação,
identificação e registro de aves no sítio
aeroportuário e áreas próximas,
a partir de local com boa visibilidade para todas as
direções. O monitoramento através
de pessoal em viaturas circulando na área de
manobras complementa a atividade anterior, formando
um panorama completo das espécies da fauna presentes.
Os resultados obtidos devem ser analisados estatisticamente,
a fim de determinar as espécies predominantes,
seus horários de atividade, principais trajetos
de risco para aeronaves, etc.
As reuniões periódicas da CCPF-L são
um excelente fórum para mostrar tais dados resumidamente,
o que dá transparência às autoridades
externas que medidas estão em curso pelo administrador
do aeródromo, impulsionando-os a participar em
suas respectivas áreas de responsabilidade.
É necessário estabelecer, com os dados
levantados, o risco associado a determinado aeroporto,
a fim de tomar decisões imediatas de controle
da fauna ou propor temporariamente restrições
em determinados horários de operação.
Para tanto, deve-se utilizar a Matriz de Ameaça
Operacional, onde se integrarão o comportamento,
o tamanho e a quantidade de aves. O uso deve ser associado
ao período do dia, escalonando-os em função
do risco para a atividade aérea, emitindo, por
exemplo, diferentes alertas aos tripulantes ou levando-a
em consideração na seleção
da pista que apresenta as melhores condições
de utilização.
Situações de alto risco, por exemplo,
são aquelas em que existe número significativo
de aves de tamanho considerável e vôo ativo
no local, associadas ao movimento de aeronaves.
Situações de médio risco são
aquelas onde as aves são menores, menos ativas
e estão representadas em menor número.
Porém ainda caracterizam um risco importante
para as operações aéreas.
Situações de baixo risco ou risco tolerável
existem quando as condições não
favorecem a ocorrência de colisão ou, caso
ocorra, terá conseqüências mais leves,
seja pelo tamanho das aves ou pela quase total inatividade
das mesmas, por exemplo, o voo de urubus no alvorecer.
Situações de risco nulo são aquelas
onde não há presença de aves nas
áreas de passagem das aeronaves, por escassez,
tamanho reduzido ou inatividade total, exemplificando,
o vôo de urubus no período noturno.

Esta
matriz representa um trabalho totalmente particularizado,
derivada de inúmeras atividades de observação,
identificação, registro, definição
de responsabilidades e trabalho em equipe. Atividades
que só se tornam possíveis com a existência
e organização da CCPF-L. Somente com tais
esforços se poderão desenvolver metodologias
científicas, baseadas num padrão pré-definido,
lógico e multidisciplinar, envolvendo a participação
coordenada de inúmeros profissionais.
Em suma, estabelecendo tais procedimentos no Brasil,
será possível ganhar eficiência
nas ações de redução do
risco imposto pela fauna. Além disto, poder-se-á
perenizar os bons resultados alcançados, evitando
o restabelecimento de condições ruins
anteriormente superadas. A falta de processos com indicadores
científicos permite que isto ocorra. Portanto,
necessitamos traduzir com metodologias concretas o sentimento
de que há muitas aves na área de determinado
aeroporto e que esta condição representa
risco à aviação e à comunidade
como um todo. Somente deste modo, serão evitadas
as distorções nos pedidos emergenciais
de abate de aves ou mesmo a interrupção
em um procedimento autorizado, devido à mudança
de pessoal que participara dos processos anteriormente.

[Retornar]
|